Olhar...

Auto-retrato: Juliana Louro

Acho que perdi a destreza do olhar. Ando olhando pouco ultimamente, não que meus olhos permaneçam cerrados, ao contrário, eles estão bem abertos, mas só enxergam sem olhar. É mais fácil viver assim. Olhar pode ser muito arriscado! Quando olhamos algo somos feridos por este instante, dominados por sua natureza, enclausurados em seus labirintos. Por isso, eu acho, muitas pessoas não se permitem olhar. Preferem fitar o mundo a ser tocado por ele. Eu prefiro os socos no estômago, as navalhas a cortar fundo a minha carne e as paixões que não escolhemos viver. Olhar pode ser dor e alegria, mas não podemos escolher entre elas. Quando olhamos corremos o risco de não mais voltar a ser o que certa vez fomos.

 

Radiola: Out Shined - Soundgarden - Badmotorfinger - 1991

Palavra

A palavra arde na minha garganta. Febril, grita coisas sem nexo. Ela quer sair, mas alguma coisa dentro de mim a impede. Tenho medo destas palavras que ardem, é mais seguro reprimi-las ainda na garganta, onde perecem seguras pelo silêncio.

Essas palavras que ardem procuram revoluções, não confio nelas, na verdade tenho medo!

Ontem foi um dia sem tamanho. Talvez por isso esta palavra me arda tanto. Não sei que palavra é essa, não a deixo sair com medo de ferir alguém, mas acho que tem alguma coisa a ver com o fato de ontem eu ter ido a um lugar e não a outro. Aí o ontem que era só passado virou este dia sem tamanho que não quer terminar...

Radiola: Sapato Novo - Los Hermanos - 4 - 2005 

Porquê há sempre um rato morto para nos fazer duvidar de Deus?

 

Foto: André Arruda

 

Perdoando a Deus - Clarice Lispector

 

“Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

... ...

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.*”

*Trechos do conto "Perdoando a Deus" de Clarice Lispéctor que pode ser encontrado no livro "Felicidade Clandestina" de 1971 

Bad Day

O Grito - Edward Münch

Eclipse

Pink Floyd

Composição: Roger Waters

All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel.
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
everyone you meet
All that you slight
everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All that's to come
and everything under the sun is in tune
but the sun is eclipsed by the moon.

Radiola: The Grat Gig in The Sky - Pink Floyd - The Dark Side of The Moon - 1973

Domingueira

Algumas cervejas, uns poucos amigos, um dvd do Pearl Jam e a vida pulsa novamente. 

Radiola: Severed Hand - Peal Jam - Pearl Jam - 2006

Dias Parnasianos

 

Era um dia triste sem caminho. Não tinha para onde ir e principalmente por que ir a algum lugar. Fiquei na cama abraçando os travesseiros. Fiquei sozinha em busca de algum caminho que me tirasse daquela inércia desoladora. Não era dia de chuva, mas minha alma estava se afogando na tempestade que havia dentro de mim, memórias, lembranças, sentimentos adormecidos sempre vem à tona nestes dias de tormenta interior. Às vezes é simplesmente difícil achar uma razão para viver.

 

Mas assim como os parnasianos que queriam a “arte pela arte”, acho que a maioria de nós uma hora ou outra acaba se contentando com a vida pela vida sem muitos questionamentos. Afinal, questionamentos são muito perigosos!

 

Foi com este instinto que me levantei ao som das doze badaladas do relógio. Era chegada à hora de dar comida ao meu corpo, um boa tarde aos convivas, um chamego nos gatos. E assim seguiu-se o dia como se a vida fosse um poema parnasiano, um poema frio de Olavo Bilac.

Ao cair da noite através do espelho vejo meus olhos prontos para explodir como a décima sinfonia de Beethoven. Sinto agora o gozo de quem não se contenta com dias parnasianos. Eu sou a minha vida e prefiro o gosto de sangue na garganta ao suave e etéreo caminhar destes dias em que me enclausuro na mediocridade rasa da vida cotidiana

Radiola: Waiting For You - Ben Harper - Both Sides of the Gun - 2006




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